Avisei ao porteiro sobre as últimas gotas de vento dentro do apartamento.
Fechado há cerca de sete anos e quatro meses, não existia alma viva que considerasse desterrar lar naquela casa.
Gentil, o senhor de sobrancelhas espaçadas recomendou-me um saudoso silêncio. Certamente eu não era a primeira a lhe contar desvarios sobre o quarto andar.
Resgatou uma chave dos bolsos bem passados e assegurou-me: "Tente o quinto."
Não existia quinto andar. Apenas uma varanda decrépita, decorada por cactos sem espinhos e uma placa com o número 503, vivo e desbotado.
Denunciei novamente as fagulhas de vento ao contemplativo guardador de portas.
Não demorou para que ele me devolvesse um sorriso sem dentes. E, antes mesmo de me entregar a chave do sexto andar, senti uma brisa ligeira.
Hoje, aquela minha visita transformou-se em dez anos inteiros. Escrevi tudo em um papel para não me esquecer, mas esqueci e, assim, posso lhes contar. Desde o rapto, ainda sinto o vento em meu nariz e o homem a me olhar lá de baixo, apontando um letreiro rabiscado no infinito cuja escrita nunca identifiquei.
O sopro aqui é constante. O vento deste lado é oceano. Não tenho queixas ou apegos, mas minha mente aturdida carrega o arrependimento senil: eu poderia ter me contentado com aquele saudoso quarto andar.
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